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Filme da Globo faz sátira à democracia

August 9, 2010

Especialmente produzida para chegar às telas em 2010 – ano de eleições para a Presidência da República no Brasil – a nova superprodução O Bem Amado, da Globo Filmes,  é quase uma ofensa à trama  original, pensada por Dias Gomes nos anos 60 e levada ao ar pela Globo nos 70 e 80.

Na crítica ao modo coronelista de governar feita por Dias Gomes, havia um tácito apelo à volta das instituições democráticas no país – então sob o jugo dos militares. Já o que existe por trás da produção atual, assinada por Guel Arraes e Paula Lavigne, é a tentativa canhestra de desmoralizar não um pensamento político, mas as próprias instituições democráticas.

Disfarçado sob uma caracterização de época absolutamente inconvincente – que começa com João Goulart e termina no comício das Diretas Já, o filme reforça conceitos mais do que atuais, sob a ótica do neoliberalismo e do Estado Mínimo.

Não é à toa que não existam, neste O Bem Amado II, candidatos que não sejam corruptos e movimentos organizados que não sejam francamente manipuláveis. Prefeitos se renovam na roubalheira, sob os aplausos da população, dentro de uma estrutura estatal (Sucupira/Brasil) composta por um funcionário público covarde e submisso, outro preguiçoso e alcoólatra e – até – um delegado contratado especialmente para distribuir assassinatos pela cidade.

Os movimentos populares existem, é verdade, mas orquestrados pelo candidato da “esquerda” – que não por acaso se chama Vladimir e é dono de um pequeno jornal de oposição mentiroso e sensacionalista.

Em última análise, a nova versão global d’ O Bem Amado quer desacreditar a política – condição essencial à democracia – e a capacidade do povo em participar dela com discernimento.

Só quem se salva, nesta versão global, é o par romântico da história: um repórter idealista, que ascende (!!) profissionalmente do jornaleco da oposição para os microfones (da Globo?), e a filha do prefeito, que se atira no movimento estudantil com o interesse único e inequívoco de conquistar o namorado. Nenhum dos dois participa nem se mistura ao jogo político, como se pudessem de fato não fazer parte dele.

Resumo da ópera: a política não vale a pena, o povo não sabe votar. A Globo diz que é comédia. Mas, reparando bem, é um drama.

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One Comment leave one →
  1. August 10, 2010 7:56 pm

    e de pensar que dias gomes começou a escrever a peça em 1962, quando era militante filiado ao pcb. lamentável que a globo tenha feito isso com a obra dele. vou ver para crer.

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