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Das tragédias da natureza às tragédias do capital

July 9, 2010


Por: Caetano De’ Carli*

A notícia dos mais de 100 mortos e desaparecidos pelas chuvas em Alagoas e Pernambuco nos leva a uma reflexão sobre quais são as consequências de um modelo de desenvolvimento que leva uma sociedade a colocar o valor da mercadoria acima da vida humana e do meio ambiente. Diante dos efeitos de tal desastre, nossa primeira reação é a de uma justa solidariedade.

Foto: Agência Brasil

Entretanto, além da importância de nos envolvermos nas doações de mantimentos e toda rede social de solidariedade, cabe-nos, também, refletir sobre como essa tragédia da natureza está vinculada intrinsicamente com uma outra tragédia: a do capital. Ao tratar a catástrofe como unicamente ecológica, esquecemos que a maior parte dos atingidos eram pobres, que a cultura canavieira devastou e devasta a Mata Atlântica pernambucana e alagoana, e todo o problema sobre as emissões de CO2 na camada de ozônio. Esquecemos que, desde muito tempo, movimentos sociais e demais organizações da sociedade civil vêm alertando contra a fábrica de miseráveis que é produzida na economia do açúcar e do álcool, além de suas consequências brutais na devastação florestal e reservas de água. Esquecemos que os debates sobre as mudanças climáticas provocadas pelo nível de poluição do planeta já datam mais de 40 anos.

Precisamos, então, acabar com essa sociedade do esquecimento – porque sob a égide de uma ética dos povos (com toda a diversidade das culturas subalternas) emergem pressupostos simples, óbvios, mas impossíveis de serem aplicados pelo sistema financeiro: os de que vidas são mais importantes que dinheiro. Como afirma Boaventura Sousa Santos, vivemos numa crise – não somente econômica  mas moral – do sistema capitalista, que se reflete no dilema alertado na quimera de Cochabamba: ou acabamos com o capitalismo, ou o capitalismo irá destruir a vida nesse planeta. O sociólogo português atribui a emergência de um tipo específico de fascismo social próprio do neoliberalismo – o fascismo financeiro. Tal fascismo pode ser compreendido através da incapacidade de governos democraticamente eleitos de cumprirem as promessas de campanha, mediante as promessas a que são obrigados a cumprir às agências de rating, ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial e ao mercado financeiro. Pode ser entendido, também, na impotência dos governos perante a questão ambiental e no fracasso de Copenhagen.

A escala de valores imorais do fascismo financeiro impõe à sociedade global: a transgenia sobre a biodiversidade; a devastação ambiental sobre o desenvolvimento sustentável; a produção de alimentos envenenados sobre a produção de alimentos saudáveis; os grandes empreendimentos imobiliários à construção de casas populares; o agronegócio sobre uma política consistente de reforma agrária; a contaminação e o uso indiscriminado das águas sobre as necessidades humanas; a morte e o lucro sobre os nossos sonhos de um outro mundo. É por isso que as recentes tragédias naturais que assolaram a Indonésia, o Chile,  Nova Orleans, o Haiti, a Ilha da Madeira, o Rio de Janeiro, Santa Catarina, Pernambuco e Alagoas são também tragédias do capital.

Cabe, ainda, o seguinte questionamento: como o capital tem se comportado na reconstrução dessas sociedades atingidas por desastres naturais? Segundo a jornalista canadense Naomi Klein, o neoliberalismo foi solidificado a partir da ascensão de um capitalismo de desastre. Importaram-se as táticas covardes dos manuais de tortura da CIA, pautadas no terror, na violência e no medo como meios de infantilizar um indivíduo e colocá-lo para fora de sua consciência normal. Essa tática foi e é aplicada pelo capital também em escalas mais amplas, no conjunto de toda uma sociedade. Porque é mais fácil a uma sociedade aterrorizada ser inócua às medidas que o neoliberalismo acha necessárias para priorizar o capital financeiro sobre os valores plurais da humanidade e da biodiversidade do planeta.

É assim que o neoliberalismo nasce em 11 de setembro de 1973, com o golpe militar no Chile, e continua a se perpetuar no pós 11 de setembro de 2001. Em razão disso, o lugar em que as comunidades de pescadores do Sri-lanka viviam antes do tsunami hoje abrigam resorts. No lugar em que vivia a população afro-americana de Nova Orleans, hoje está sendo implementado um complexo de cassinos e outros investimentos da indústria do entrentenimento. Ou seja, o capital não somente é o corresponsável por tais tragédias, como ainda agrava os efeitos dos desastres naturais para a população mais empobrecida. É por isso que a sociedade brasileira deve estar não somente em alerta, mas, principalmente, mobilizada para impedir uma reconstrução que priorize o setor sucroalcooleiro, em detrimento das famílias pobres camponesas e urbanas.

Nesses momentos de tragédias, não podemos ser uma sociedade do esquecimento, nem uma sociedade aterrorizada, mas solidária, no sentido mais amplo da solidariedade, a fim de nos transformarmos em ativistas em prol de uma reconstrução a partir dos pobres, que passa pela reforma agrária, pelo desenvolvimento sustentável, pela construção de casas populares, pelo combate à insegurança alimentar e nutricional, pelo saneamento básico, pela reconstrução da rede elétrica e de abastecimento de água. Que passe pela vida humana e pela biodiversidade, e não pelos valores imorais que pautam a agenda do capitalismo neoliberal.

Caetano De´Carli é doutorando em Poscolonialismos e Cidadania Global CES/Universidade de Coimbra

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